O fascismo não existe mais

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Como uma ideologia histórica se transformou em rótulo para qualquer pessoa que ouse pensar diferente?
O fascismo existiu. Nasceu como movimento político na Itália, chegou ao poder com Benito Mussolini em 1922 e estabeleceu um regime autoritário que entrou em colapso entre 1943 e 1945. Foi uma experiência histórica concreta, com contexto, características e responsáveis identificáveis.
Mas o que aconteceu depois? Será que a palavra fascismo passou a ser utilizada com tanta frequência que perdeu parte de seu significado original?
Hoje, entretanto, basta alguém se declarar nacionalista, defender a soberania de seu país ou discordar de determinadas pautas da esquerda. Assim, outros logo o chamam de fascista. Já vi esse raciocínio de perto: rotularam-me assim simplesmente por eu me declarar nacionalista. Além disso, o argumento era que, como o fascismo era nacionalista, todo nacionalista seria fascista.
Isso não é análise histórica. É uma simplificação grosseira.
O fascismo italiano possuía características que iam muito além do nacionalismo: autoritarismo, culto ao líder, repressão aos opositores e rejeição do pluralismo democrático. Defender a independência econômica, a indústria nacional, os interesses brasileiros e a soberania do país não torna alguém automaticamente defensor desse regime.
Compartilhar uma característica não significa compartilhar uma ideologia inteira.
É importante reconhecer que movimentos neofascistas continuaram existindo depois da Segunda Guerra Mundial. Portanto, não estou dizendo que desapareceram todas as ideias ou organizações inspiradas no fascismo. O que terminou foi o regime fascista histórico que governou a Itália. Confundir essa experiência com qualquer pessoa que tenha posições nacionalistas é outra questão, e é justamente essa confusão que precisamos discutir.
Primeiramente, o mesmo problema aparece quando alguém usa a palavra nazista para descrever praticamente qualquer adversário político. Além disso, o nazismo histórico foi um regime específico, responsável por crimes imensos, incluindo o Holocausto. No entanto, existem movimentos neonazistas, mas isso não significa que possamos classificar dessa maneira toda pessoa de quem discordamos.
Por exemplo, George Orwell já denunciava esse fenômeno em 1944, quando observou que lançavam a palavra “fascismo” indiscriminadamente contra adversários muito diferentes. Por fim, seu alerta continua atual: quando um conceito político vira sinônimo de insulto, perde sua precisão e sua utilidade para compreender a realidade.
A armadilha dos rótulos
Rotular é mais fácil do que argumentar. É mais simples chamar alguém de fascista do que examinar suas propostas, compreender sua visão de país e responder às suas críticas.
Assim, essa simplificação cria uma armadilha linguística: o adversário deixa de ser alguém com quem podemos debater. Além disso, ele passa a ser alguém que precisamos desqualificar. Em determinados setores da esquerda, qualquer divergência pode virar sinal de extremismo. Enquanto isso, esses setores deixam de examinar as próprias contradições.
Evidentemente, essa postura também pode existir à direita. Nenhum campo político possui o monopólio da intolerância.
O problema é transformar a política numa disputa entre pessoas supostamente virtuosas e inimigos que não merecem ser ouvidos. Quando todo mundo é fascista ou nazista, como identificaremos aqueles que realmente defendem ideias fascistas ou nazistas?
O uso indiscriminado desses termos não fortalece o combate ao autoritarismo. Pelo contrário: enfraquece a capacidade de reconhecer suas manifestações reais.
Nacionalismo não é sinônimo de fascismo.
Uma nação pode defender sua soberania, investir no desenvolvimento industrial, proteger seus interesses estratégicos e buscar independência tecnológica sem abandonar a democracia.
Ou seja, o nacionalismo não é uma doutrina única. Existem diferentes correntes nacionalistas, com concepções distintas de economia, sociedade, liberdade e organização política. Algumas são democráticas; outras podem assumir características autoritárias.
Por isso, a pergunta relevante não é simplesmente se alguém é nacionalista, mas o que defende, quais métodos aceita e como compreende a relação entre Estado, sociedade e liberdade individual.
Dessa forma, atribuir automaticamente o rótulo de fascista a qualquer nacionalista não explica essas diferenças. Apenas evita discuti-las.
Precisamos recuperar o significado das palavras.
O fascismo histórico merece ser estudado, lembrado e combatido quando seus princípios autoritários reaparecem. Mas a memória histórica não deve ser transformada em instrumento de intimidação política.
Ser contra o PT não torna ninguém fascista. Além disso, discordar da esquerda não transforma ninguém em nazista. Da mesma forma, ser de direita ou nacionalista não isenta ninguém de responder por propostas autoritárias concretas.
Acima de tudo, a democracia exige que avaliemos as ideias pelo que realmente são. Além disso, ela rejeita rótulos que a conveniência ideológica distribui.
Quando toda divergência vira fascismo, o debate deixa de ser sobre ideias e passa a ser sobre quem tem o direito de falar.
O Brasil precisa de menos patrulhamento ideológico e mais argumentos. Menos acusações automáticas e mais rigor histórico. Uma nação não se fortalece quando seus cidadãos são constrangidos a pensar da mesma maneira, mas quando conseguem discutir seus próprios rumos com liberdade, responsabilidade e respeito.
Afinal, se chamar alguém de fascista virou uma maneira de evitar o debate, será que estamos realmente combatendo o autoritarismo ou apenas encontrando uma forma conveniente de silenciar quem pensa diferente?

