A Nova Rota do Investimento Chinês no Brasil: Como a China Deixou de Apenas Exportar para Controlar a Infraestrutura Estratégica do Brasil

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O investimento chinês no Brasil passou por uma transformação profunda nos últimos anos. Em 2025, o país se consolidou como o maior destino global desses recursos, somando US$ 6,1 bilhões distribuídos em 52 projetos. Contudo, o aspecto mais importante dessa marca não é apenas o montante financeiro, mas sim a mudança estratégica de perfil.
Durante duas décadas, a relação bilateral foi estritamente comercial, focada na venda de commodities e compra de manufaturados. Agora, grupos econômicos da China compram terminais portuários, arrematam grandes concessões elétricas, assumem fábricas desativadas e financiam corredores logísticos cruciais no país.
Além disso, este artigo examina dez frentes dessa mudança estrutural. Cada operação foi checada em fontes primárias e na imprensa especializada para diferenciar operações concluídas daquilo que ainda está em negociação.
O Raio-X do Investimento Chinês no Brasil em Números
Em 2025, o volume aplicado por empresas chinesas no território brasileiro cresceu 45% em relação ao ano anterior. Com esse resultado, o Brasil absorveu 10,9% de todo o capital produtivo aplicado pela China no exterior durante o período.
Investimento chinês no Brasil: 2025 foi o maior ano desde 2017
Fluxo anual de investimento direto chinês, US$ bilhões (2010–2025)
13
8,8
1,3
4,2
6,1
CEBC, Investimentos Chineses no Brasil 2025 (maio/2026), série reproduzida pelo Times Brasil.
Gráfico demonstrando a evolução do investimento chinês no Brasil desde 2010 até 2025.
O contraste com a dinâmica global revela a prioridade dada ao mercado brasileiro. Enquanto o investimento estrangeiro total no país avançou 4,8% em 2025 (atingindo US$ 77,7 bilhões), o capital vindo da China cresceu quase dez vezes mais rápido no mesmo período.
A distribuição setorial desses aportes mostra prioridades claras:
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Eletricidade: 29,5% do total (US$ 1,79 bilhão).
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Mineração: 29,0% do total (US$ 1,76 bilhão — o triplo de 2024).
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Setor Automotivo: 15,8% do total (US$ 965 milhões).
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Petróleo: 13,3% do total.
Dessa forma, energia, minérios e indústria manufatureira concentraram quase 90% dos recursos. No acumulado desde 2007, o estoque de capital chinês no país alcançou US$ 85,5 bilhões, distribuídos em 355 projetos.
Portos Estratégicos: O Investimento Chinês no Brasil Assume o Controle da Saída
1. Petróleo — Terminal da Vast no Porto do Açu (RJ)
Em fevereiro de 2025, a China Merchants Port Holdings assinou a compra de 70% da Vast Infraestrutura, operadora do terminal de transbordo de petróleo no Porto do Açu. Ademais, o valor base da transação ficou entre US$ 448 milhões e US$ 714 milhões após os ajustes contratuais.
Trata-se do único terminal privado nacional fora da Petrobras capaz de operar superpetroleiros (VLCC), com capacidade licenciada para 1,2 milhão de barris por dia. Atualmente, dois terços do petróleo movimentado na estrutura já seguem para o mercado chinês.
No entanto, a operação ainda aguarda conclusão formal. Em novembro de 2025, as partes aditivaram o contrato e estenderam o prazo de fechamento para 28 de novembro de 2026.
2. Grãos — Terminal STS11 no Porto de Santos (SP)
A estatal COFCO venceu em março de 2022 o leilão de arrendamento do terminal STS11 por 25 anos. A primeira fase operacional começou em 2025. Com a obra concluída, a capacidade da empresa em Santos subirá de 4,5 milhões para 14 milhões de toneladas anuais.
Além dos US$ 285 milhões aplicados no terminal cais, a COFCO investiu R$ 1,2 bilhão na compra de 979 vagões e 23 locomotivas para o transporte de grãos e açúcar. A frota é própria, mas roda sob a operação da malha ferroviária da Rumo.
Energia Elétrica: A Espinha Dorsal do Investimento Chinês
3. State Grid e o Megaleilão da Aneel
A estatal State Grid arrematou o Lote 1 do maior leilão de transmissão da história da Aneel, realizado em dezembro de 2023. O projeto compreende 1.468 km de linhas em corrente contínua, atravessando Maranhão, Tocantins e Goiás, com investimento previsto de R$ 18,1 bilhões.
A infraestrutura transporta a energia eólica e solar produzida no Nordeste para os centros de consumo do Centro-Sul. Portanto, esse aporte consolidou a State Grid — que também controla a distribuidora CPFL — como um ator central no sistema elétrico brasileiro.
Mineração e Minerais Críticos na Nova Rota do Capital Chinês
O setor mineral recebeu US$ 1,76 bilhão de recursos chineses em 2025, marcando o maior valor registrado desde 2011. O avanço ocorreu por meio de grandes aquisições de ativos de ouro, níquel e terras raras.
4. Ouro — CMOC adquire Minas da Equinox
Em dezembro de 2025, a CMOC comprou as operações de ouro da canadense Equinox Gold, localizadas em Minas Gerais, Bahia e Maranhão, por aproximadamente US$ 1 bilhão.
5. Níquel — MMG e os Ativos da Anglo American em Goiás
A MMG, controlada pela estatal China Minmetals, fechou em fevereiro de 2025 a compra do negócio de níquel da Anglo American no Brasil por até US$ 500 milhões. O pacote abrange as minas de Barro Alto e Niquelândia, além das usinas de ferroníquel. A conclusão final do negócio depende da aprovação de órgãos reguladores europeus e tem prazo até novembro de 2026.
6. Lítio e Terras Raras — Gulf Resources e Montes Verdes
Em agosto de 2026, a chinesa Gulf Resources firmou um acordo de cooperação com a brasileira Montes Verdes Participações para estruturar uma futura joint venture em lítio, terras raras e ouro. Por enquanto, a parceria é uma declaração de intenções que sinaliza o forte interesse chinês em minerais críticos.
Indústria Automotiva: O Avanço do Investimento Chinês no Brasil
O setor automotivo brasileiro recebeu US$ 965 milhões em investimentos chineses em 2025, registrando uma alta de 66%. As montadoras asiáticas têm focado na ocupação de complexos fabris deixados por antigas marcas ocidentais.

Fábrica de veículos da Renault, que passará a construir os carros elétricos e híbridos da chinesa Geely, exemplificando o investimento chinês no Brasil.
7. BYD — Complexo Industrial de Camaçari (BA)
A BYD adquiriu a área de 4,6 milhões de m² deixada pela Ford na Bahia. A fábrica foi inaugurada em 9 de outubro de 2025 com investimento de R$ 5,5 bilhões e geração de 9 mil empregos. A unidade possui capacidade inicial de 150 mil veículos por ano, montados inicialmente em kits importados, com meta de ultrapassar 50% de nacionalização até 2027.
8. GWM — Unidade de Iracemápolis (SP)
A Great Wall Motor comprou a antiga planta da Mercedes-Benz e iniciou a produção em 15 de agosto de 2025, dentro de um plano de investimentos de R$ 10 bilhões até 2032. A fábrica produz os modelos híbridos Haval H6, H9 e a picape Poer P30. Por último, a fabricante estima fechar 2026 com 32 mil unidades.
9. Geely — Participação na Renault do Brasil
Em novembro de 2025, a Geely concluiu a compra de 26,4% da Renault do Brasil. Dessa forma, a empresa chinesa passou a ter acesso ao Complexo Ayrton Senna no Paraná, ao centro de engenharia local e à rede de concessionárias da marca francesa.
Infraestrutura de Dados: Data Center da ByteDance no Ceará
10. ByteDance no Complexo do Pecém (CE)
O grupo ByteDance, proprietário do TikTok, anunciou um plano de investimentos de R$ 200 bilhões (US$ 37,7 bilhões) para a construção de um data center no Pecém. As obras da primeira fase começaram em janeiro de 2026, com operação prevista para o terceiro trimestre de 2027.
O empreendimento é desenvolvido pela plataforma Omnia (do fundo Pátria) e utilizará energia renovável da Casa dos Ventos. A localização no Ceará foi escolhida por ser o ponto de ancoragem dos cabos submarinos de fibra óptica que ligam o Brasil à Europa e à África.
Ferrovias e Corredores Bioceânicos em Disputa
Na área ferroviária, ainda não existem concessões diretas operadas por empresas chinesas, mas há movimentos relevantes de aproximação:
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Fiol 1 (BA): A portuguesa Mota-Engil — que tem a estatal chinesa CCCC como acionista — negocia assumir as obras da Ferrovia de Integração Oeste-Leste no trecho Ilhéus–Caetité.
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Fico-Fiol: O leilão do corredor conectando Mara Rosa (GO) à Bahia está previsto para dezembro de 2026, e autoridades chinesas já manifestaram interesse em participar da disputa.
Se esse projeto avançar, grãos do Centro-Oeste poderão ser escoados até o Pacífico pelo Porto de Chancay, no Peru, estrutura também controlada pelo capital chinês.
A Lei 15.506/2026 e o Novo Marco dos Minerais Estratégicos
Para acompanhar a crescente presença estrangeira em ativos estratégicos, o governo brasileiro sancionou a Lei nº 15.506 em 16 de setembro de 2026. A legislação criou a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE) e o Conselho Nacional (CIMCE).
A nova lei estabelece três pilares fundamentais:
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Controle Societário: O CIMCE precisa homologar qualquer transferência de controle em empresas detentoras de minerais estratégicos.
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Exigência de industrialização: Incentivos fiscais ficam condicionados ao beneficiamento do minério dentro do território nacional.
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Transparência: Criação do Cadastro Nacional de Projetos de Minerais Críticos.
Conclusão: parceria estratégica ou dependência?
Em resumo, a expansão do investimento chinês no Brasil traz benefícios concretos para a economia nacional, reativando fábricas desativadas, construindo linhas de transmissão e expandindo a logística de exportação.
Por outro lado, a concentração do controle da cadeia produtiva e do transporte nas mãos de um mesmo parceiro comercial exige atenção. Ademais, a soberania brasileira dependerá da capacidade do país em impor regras de conteúdo local, aplicar a triagem sobre ativos minerais e manter a diversificação em leilões de infraestrutura.
Nota de Verificação e Checagem de Fatos
Este artigo atualizou e corrigiu informações imprecisas que circulavam previamente sobre o tema. A tabela abaixo sintetiza os pontos checados:
| Texto original | O que as fontes mostram |
|---|---|
| Açu: compra pela China Merchants Energy Shipping, já firmada | Compradora é a China Merchants Port Holdings; fechamento pendente, prazo-limite 28/11/2026 |
| STS11: COFCO controla ferrovia própria | Vagões e locomotivas próprios, operados pela Rumo na malha da Rumo |
| Gulf Resources: “gigante chinesa” | Produtora de bromo e sal de porte médio; acordo sem valor, participações ou cronograma |
| Geely: 26,4% da “divisão de motores” da Renault | 26,4% da Renault do Brasil inteira |
| Minas de ouro e níquel em Goiás e Mato Grosso | Ouro em MG, BA e MA (CMOC); níquel em GO (MMG, ainda pendente) |
| State Grid: leilão recente, ligação Nordeste–Sudeste, “maior operadora” | Leilão de dez/2023, linha MA–TO–GO; liderança absoluta não verificada |
| Fiol: consórcios chineses avançam na concessão | Nenhuma concessão chinesa; Mota-Engil (acionista CCCC) negocia a Fiol 1; leilão Fico-Fiol previsto para dez/2026 |
| ByteDance: “maior data center fora da China” | Primeiro na América Latina; ativo desenvolvido pela Omnia (Pátria), ByteDance como ocupante |
| Brasil supera os EUA como destino | Liderança global confirmada pelo CEBC; comparação específica com os EUA não localizada |
Referências
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NEW MOBILITY NEWS. Renault Group and Geely strengthen their cooperation. Disponível em: https://newmobility.news/en/2025/11/04/renault-group-and-geely-strengthen-their-cooperation/. Acesso em: 3 nov. 2026.
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TIGER BROKERS. Notícia 1146685843. Disponível em: https://www-web.itiger.com/news/1146685843. Acesso em: 3 nov. 2026.
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CONSELHO EMPRESARIAL BRASIL-CHINA (CEBC). Relatório de Investimentos. Disponível em: https://arq.migalhas.com.br/arquivos/2026/7/6C36AC8D6E0F6B_RelatorioCEBC.pdf. Acesso em: 3 nov. 2026.


